sexta-feira, 21 de setembro de 2012

E o Ganso voou...

A ave voou! E há quem diga que já tenha voado tarde. De minha parte, não sei. O tempo dirá.

Paulo Henrique Lima, o Ganso, é um jogador diferenciado. Toque refinado na bola, chute preciso, não se afoba, pensa o jogo. Ele também é um jogador atormentado. Já operou seriamente cada joelho, sofre de várias lesões musculares, não se relacionava bem com a diretoria praiana, é mal assessorado por seus empresários, desfez a amizade com aquele que o levou à Vila.

Aquele que o levou à Vila é nada menos que Giovanni, o Messias. Conterrâneos, o mítico camisa 10 dos anos 90 reconheceu o valor do pequeno Paulo Henrique e o trouxe para o litoral paulista em 2005.

Em 2008, Leão sugeriu a Marcelo Teixeira que emprestasse o futuro craque ao São Caetano. Zito e outros monstros da Vila impediram a insana transação. Após a saída da Leonina Baronesa, Ganso começaria a ter mais chances nas mãos de Chulapa. A torcida jamais esquecerá aquele gol contra o Guarani.

A partir de 2009, com a subida de Neymar para o profissional, começava a despontar a dupla mais festejada no futebol brasileiro desde Diego e Robinho. Mesmo com um elenco sem outras grandes peças, eles levaram o time ao vice-campeonato paulista de 2009.

Mas é em 2010 que Paulo Henrique vira, de fato, Ganso, o maestro do Peixão. Com Dorival comandando o time, um elenco com Wesley, Arouca, Robinho e Neymar, o camisa 10 fez chover em seus passes magistrais. Naquela época, diziam que ele era até melhor que nosso camisa 11. A final do Paulista de 2010, contra o Santo André, quando ele pediu para ficar em campo, estará no coração dos santistas para sempre também.

E aí tudo muda...

O jogador de personalidade forte em campo parece que não é o mesmo fora dele. Depois de ganhar Paulista e Copa do Brasil naquele ano, Ganso nunca mais seria o mesmo. Atuou ainda alguns bons jogos, como a final do Paulista deste presente ano, quando abriu caminho para vitória em um gol genial. Ou mesmo contra o Corinthians neste mesmo Paulista, quando deu passe mágico para Ibson marcar.

No final de agosto de 2010, o Santos, após ter feito um plano para manter Neymar no Brasil, apresentou algo semelhante para Ganso. Um dia antes da reunião para decidir o futuro do meia, ele se machucou em partida contra o Grêmio, pelo Brasileirão.

Apesar da DIS (empresa de esportes ligado ao supermercado Sondas e que cuida da carreira de Ganso) dizer o contrário, o Santos manteve a proposta a Ganso como podemos ver aqui e aqui também. É engraçado até que Globo e Uol também se esqueçam de mencionar as próprias matérias.

A verdade é que, nesse mesmo período, Santos e DIS entraram em rota de colisão. O Santos começou a questionar, na justiça, a validade dos contratos da empresa e clube feitos na gestão de Marcelo Teixeira. A nova presidência alegava que os valores que a empresa pagou por percentual de vários atletas eram muito menores do que as multas estipuladas em contratos à época.

Naquele momento, André e Wesley, jogadores que tinham seus direitos ligados à DIS, foram vendidos e o Santos não repassou os valores que a empresa se achava no direito de receber. Apesar da proposta ser tentadora a Ganso, acredito que, pelo atleta ter escolhido ficar ao lado do grupo de investidores, isto resultou na recusa de renovação de contrato com o Santástico.

A partir daí, o Maestro virou jogue na mão da DIS, que começava a travar uma guerra para tirá-lo do Santos. Um acontecimento que deixa claro o quanto a cabeça de Ganso estava virada é rompimento deste com Giovanni. Mestre e Pupilo deixam de se falar por conta da participação que o Messias teria em uma possível negociação. Paulo Henrique disse que daria 1% ao invés dos 10% acertados verbalmente com o Messias.

Corinthians, Porto... Mas como sair do grande campeão?

Em 2010 mesmo, Santos já tinha renovado contratos de Neymar e Ganso antes de agosto, por perceber o iminente sucesso da dupla. Os novos contratos surgiram como mais um esforço de mantê-los e premiá-los. Isso também faz parte de uma política de manter ídolos, que a nova diretoria adotou.

Com Ganso lesionado e uma multa razoavelmente alta, a DIS não via como tirar o jogador do Santos. Foi, então, que ela instruiu o jogador a dizer, sempre que entrevistado, que estava esquecido e desvalorizado. A ideia era forçar a barra para que o Santos não exigisse um caminhão de dinheiro pela saída do camisa 10.

Só que o Santos viveu em 2010 e 2011 anos mágicos de títulos históricos. Em 2011, a empresa tentou levar o jogador para o Corinthians. Porém, como tirar o jogador da maior vitrine do futebol sulamericano, o atual campeão da América?

Apesar da vontade de tirar o jogador da Vila, ninguém rasga dinheiro. Manter o jogador na Vila poderia despertar a cobiça de grandes clubes europeus e um bom valor na negociação satisfaria a DIS e o Santos, também.

A única coisa que não estava no script era a quantidade de lesões que Ganso sofreu. Só para ter uma ideia, Ganso é o jogador que menos atuou nos Brasileirões de 2011 e 2012.

As propostas não vieram, a disputa judicial entre DIS e Santos se acirrou. Em 2012, o almejado bi da Libertadores não veio também. O Grupo de Investidores achou que agora era hora de fazer todo esforço para tirar Ganso da Vila.

Oi oi oi

Apesar de rotularem Ninas e Ritas, não houve uma novela tão dramática para a saída de Ganso do Santos. Só que questões comerciais precisam ser bem debatidas mesmo.

Ganso, mesmo com a cabeça virada pela DIS, é um baita camisa 10. Ele gosta do Santos. Disso não tenho dúvida, pois o negócio dele é contra esta diretoria. E por tudo isso, não se pode abrir mão de um jogador desse quilate por pouco.

O plano do Santos para o Maestro era trabalhar a paixão e a mística da 10 da Vila. Ganso e DIS preferiram só negócios. Só que negócios são negócios. E se era para ser assim, o alvi-negro praiano tinha que tirar toda vantagem possível nessa negociação. E o fez.

Vendeu o camisa 10 pelo valor que lhe cabia; conseguiu uma porcentagem em uma venda futura do jogador - além do que já receberia por ser formador; e ainda conseguiu com que a DIS não penhorasse suas receitas. Ótimo negócio! E não tem que ter diretor do Sonda chorando pitangas.

Postei no texto anterior a este que o jogo do Santos deveria ser duro. Se era vontade do jogador sair, até o Sonda poria a mão no bolso para tirá-lo. E foi o que aconteceu.

Adeus Maestro

Desejo sorte ao Ganso. De fato, sua imagem ficou arranhada na Vila. Mas é um ídolo e, se voltar o que sabe jogar, será de grande ajuda na seleção.

Sua permanência na Vila era impossível. Mas ainda não sei se lamentarei ou comemorarei a venda. Não sei se ele foi tarde. A verdade é que eu não gostaria que ele saísse.

Mas quem sabe com esse dinheiro o Santos não monta um bom time para o ano que vem; quem sabe Ganso volte a ser um jogador cerebral novamente; quem sabe não sai todo mundo feliz nessa história. Só o tempo vai dizer.