quinta-feira, 25 de março de 2010

Benefício à população ou queda de braço?

Eu não venho aqui para repetir tudo que está sendo falado sobre a lei que determina o término das partidas até as 23h. Não vou aqui falar que isso é politicagem, pois o Juca já disse e ele escreve muito melhor do que eu. Também não vou falar que essa lei é, além de eleitoreira, um pingo d’água no mar de problemas que afasta o torcedor do estádio, pois Erich também já falou sobre isso e, tal qual o Juca, tem muito mais talento com as letras do que eu.

E os caras falaram tudo e só sobra para mim um único caminho para entrar nesse debate. Tentar contribuir um pouquinho com aquilo que eu estudei durante alguns bons anos no prédio da Letras. Eu queria aqui refletir um pouco aqui sobre esse acontecimento discursivo, queria aqui pensar nos discursos proferidos, como eles vieram à tona. Claro que aqui não vou ficar me atendo a uma análise discursiva minuciosa, até porque isso seria de fato muito chato. Mas eu queria aqui levantar alguns fatos importantes para tentarmos entender por que raios de repente se levantou essa questão.

O horário do jogo depois da novela é realmente um saco. Mesmo a gente que assiste aos jogos em casa, muito chato ter que esperar acabar o Big Brother e o romance do médico com a cadeirante. Mas desde que eu me entendo como um apaixonado pelo mundo da bola é assim. Sinceramente, lembro de alguns poucos jogos de decisões jogados em meio de semana no horário da tarde. Então, como é que de repente, do nada, sem motivo algum, o pessoal vem e levanta essa bandeira? De fato, não foi o acaso que nos levou a debater sobre esse assunto. Vamos lembrar o início do ano, o início do campeonato.

Quando o Paulistão começou, a Federação Paulista surpreendeu a todos com uma regra nova para quem cobre os jogos do campeonato. A partir de 2010, nada mais de repórteres em campo, antes do jogo, no intervalo ou depois do apito final. A idéia é ter menos tumulto em campo, não atrasar as partidas. Ora, essa medida é a mesma que já acontecia na Libertadores. E para todos aqueles que acham que o Brasil tem que se espelhar no modelo europeu, está aí mais um passo para tentarmos chegar ao mesmo nível de organização de lá. Eu tenho algumas restrições sobre aquilo que copiamos da Europa para organizar nossos campeonatos, mas isso fica para outro texto. Só que é bom lembrar que radialistas e o pessoal da TV adora tudo que é feito igual aos que os gringos fazem.

Voltando um pouco mais no tempo, veremos que a medida de proibir de vez as reportagens dentro do campo ganhou força depois do que aconteceu ano passado quando o Corinthians foi campeão Paulista. Houve muito empurra-empurra. Uma verdadeira várzea que, por conta até da desorganização da Federação Paulista, quase terminou em incêndio. Ronaldo, o Gordo, desceu a lenha nessa coisa de todo mundo entrar em campo e citou a Europa. E a papagaiada toda da mídia o aplaudiu.

Só que agora no início do presente ano, o discurso pró-Europa mudou, pelo menos para um veículo da mídia. Voltando ainda um pouco ao ano passado, a Globo tinha inventado uma cláusula de exclusividade para que só ela entrasse em campo para fazer reportagens. Um verdadeiro absurdo que, lideradas pela Jovem Pan, as outras empresas de comunicação conseguiram acabar através de uma liminar obtida na justiça. Nesse ponto, uma disputa Globo/Jovem Pan começava. E a Jovem Pan não engoliu a proibição geral da entrada de repórteres dentro de campo para cobrir os jogos deste ano.



A Jovem Pan entrou novamente com liminar na justiça e acusou a Federação Paulista de fazer censura e impedir o livre trânsito de informação. Como ela tinha conseguido a liminar ano passado, acreditou que neste ano aconteceria a mesma coisa. E fez vários daqueles editoriais falando sobre o assunto, aquele com o tamborzinho e tudo. Quem é ouvinte da rádio sabe do que estou falando. Mas esse ano não deu, a liminar não saiu e a Jovem Pan começou sua campanha contra Globo, mentora da nova regra para repórteres da FPF.

A rádio do Brasil, como diz o slogan da JP, que circulava editoriais falando sobre o possível processo de censura que o Governo Federal estaria armando, parou de circular tais editoriais e começou a pedir a censura do programa que é a menina dos olhos do Ibope Global no início do ano, o BBB. Ridículo! Mostrando que o medo da censura é mentira hoje no Brasil, que na verdade o que acontece é uma disputa de poder para ver quem é que vai circular a informação e qual informação. Mas a Jovem Pan acabou não vendo surtir efeito nesta propaganda contra.

Então, a emissora de rádio começou uma verdadeira guerra aberta contra o horário dos jogos depois da novela. E se valendo do ano eleitoral, fez seus apelos aos políticos. E aí juntamos a fome com a vontade de comer. Político em ano de eleição quer aparecer e quer exposição maior do que se envolver com aquilo que é a paixão do povo brasileiro? A Jovem Pan, dizendo-se porta-voz do povo, conseguiu apoio dos ilustríssimos vereadores de São Paulo, Antônio Goulart e Agnaldo Timóteo. E daí a demagogia corre solta até onde vimos ontem, com a audiência pública na Assembléia Legislativa.

Claro que seria mais legal ter os jogos mais cedo, mas me desculpa, não são meia hora ou quarenta minutos que resolverão o problema de cedo ou tarde do jogo no meio de semana. O horário proposto é uma provocação a Globo e seu monopólio sobre os grandes eventos no país. Essa meia hora só serve para alterar a grade da novela. E, como provocação ao poderio Global, eu acho genial também. Mas mascarar essa pirraça da Jovem Pan com a Globo sob o rótulo de luta em nome do bem estar social é uma piada com a população e uma afronta a nossa inteligência.

Como bem disse um deputado ontem na Assembléia, então, se o problema é o horário, a falta de transporte e a segurança, os grandes shows também não podem ocorrer de madrugada. Aliás, se o raciocínio for esse, é melhor que acabem com os serviços 24hs. Pior ainda, se alguém levar isso muito a sério, depois das dez da noite, devido ao pouco investimento em transporte público e em segurança pública, teremos é toque de recolher em nome do bem comum, de uma vida mais saudável, de uma cidadania mais plena e de que é preciso trabalhar logo cedo no dia seguinte. Os argumentos levados para debate e para defenderem tal linha de raciocínio, mostram bem a cara de uma classe que adora as facilidades da grande cidade, mas que não abre mão de seu estilo de vida provinciano (mas isso eu também para outro texto e em outro blogue).

O que está em disputa na verdade é uma queda de braço entre Globo e Jovem Pan. Claro que os papagaios da política aproveitaram carona. Mas, por favor, não venham me dizer que em uma cidade com 11 milhões de habitantes, que possui uma das noites mais movimentadas do mundo, serviços 24hs até nos mais distantes bairros do centro, precisa de uma lei que faça terminar os jogos de futebol mais cedo para que o trabalhador não precise ir dormir tarde, para que o torcedor não fique sem condução para voltar para casa e para que a família paulistana se sinta mais segura. Isso tudo que mostram de números, depoimentos da população pró-horário alterado, é tudo falácia, balela!

E virou circo. E como sempre o palhaço principal é o torcedor, pois é na nossa cara que a torta, ou pizza que é mais comum no Brasil, vai parar. E nada vai mudar, pois a idéia não realmente mudar, e sim testar poder. É circo e só. E se é circo mesmo, que me desculpem, mais eu vou preferir dedicar minha atenção só para o Circo do Seu Laor. Aliás, o espetáculo começa daqui a pouco e é muito melhor de se ver.

E abraço, pois esse assunto do outro circo aí já encheu as paciências desse palhaço aqui.

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