quinta-feira, 4 de junho de 2009

Kaká, Real e a moldura do futebol europeu

Na semana passada, escrevi um texto exaltando, talvez de maneira até exagerada, o grande feito do Barcelona e o grande clube que ele é. A verdade é que o disse aqui corresponde com o que penso. Acredito hoje que o futebol jogado pelo Barça é mais gostoso de ver, pois prefere atacar a se defender. Além disso, conta com uma linha de cinco no ataque que só está abaixo de linhas como Mengálvio, Coutinho, Dorval, Pelé e Pepe.

Apesar de tudo isso, o Barça é um time de enorme tradição, mas fora dos domínios espanhóis, ele começa a ganhar títulos importantes fora dos domínios espanhóis recentemente. Aliás, primeira Champions League do Barça foi na década de 90. Acredito que a forma que esse time pensou desde sempre sua administração faz com ele seja a grande potência que é hoje e o time que tem maior potencial de crescimento no Velho Continente, na minha opinião pelo menos. Ele e o Manchester.

E sendo o Barça um novato nas grandes conquistas internacionais, o outro gigante espanhol e mundial, também, o Real Madrid é maior campeão de todos os tempos da história do esporte bretão. O time Merengue montou esquadras fantásticas na época de ouro do futebol, times que só sofriam com a sombra do dream team do Peixe. Mas lá pela Europa, jogadores liderados por nomes como Ferenc Puskás, Alfredo Di Stéfano e Raymond Kopa papou tudo que era títulos e encantou com futebol vistoso de muitos gols e toque refinado.

O Real, ao contrário do Peixe, fez muita grana nesse período. O Santos também fez, para falar a verdade, mas a cultura de direções amadoras no futebol brasileiro fizeram o Peixe caminhar ao abismo. Claro que os aspectos sociais do nosso país também contribuíram para um não melhor desempenho do meu glorioso time, mas a verdade é que os diretores meteram a mão no Santos. Já as administrações madrilenhas aproveitaram os aspectos sociais e econômicos da Europa e com certa competência levaram o time a se tornar uma enorme potência do esporte, virando inclusive referência para equipes do mundo inteiro.

Real Madrid, então, começou a montar times fortíssimos e, com a globalização nos anos 90, a exposição do futebol do velho mundo para os outros cantos do planeta aumentou extraordinariamente. Ao fim desta década, o Real montou um time recheados de estrelas e, no início deste século, ganhou a alcunha de Galáticos. Zidane, Roberto Carlos, Ronaldo (na época ainda Fenômeno), Beckham, Figo, Raul. Nomes que, além de virem acompanhados de bom grau técnico, agregaram também altas cifras. As contratações foram milionárias e praticamente se pagavam com venda de camisas e nas excursões que o time faz no início das temporadas.

Não só o Real lucra assim, todos os grande da Europa. Manchester, Chelsea, Liverpol, Arsenal na Inglaterra. Milan, Inter, Juve na Itália. E mais alguns grandes clubes que lucram alto no início da temporada, fazendo inclusive a pré-temporada fora de seus países também. A verdade é que o salto logo de cara da Europa em estruturar o futebol e em vender bem seu produto, dá uma moldura diferenciada da moldura encontrada aqui no Cone Sul do Novo Mundo. A verdade é que parece tudo lá ser mágico. Além dos grandes nomes presentes em campo, contam também com estádios de primeiríssima linha, além de toda organização fora de campo, que impressiona principalmente quando se acompanha de forma distante os certames europeus.

Aliás, a verdade é bem essa, é tudo muito bonito visto de fora e vende bem. Já dentro de campo, hoje, só realmente o Barcelona e, um pouquinho, o Manchester possuem times jogando um futebol de fazer inveja aos grandes times da América. Tirando a parte de goleiros, que a Europa tem escola fabulosa, nos demais setores de campo não é difícil detectar jogadores e esquemas táticos piores do que os apresentados no Brasil. O G4 Paulista entraria bem em qualquer campeonato por lá, não faria feio e nas ligas nacionais de alguns países com futebol campeão do mundo, leia-se França e Alemanha, esses times, além de beliscar vagas para a Champions League, lutariam fortemente pelo título da temporada.

Futebolísticamente falando, ali nas quatro linhas, quem está de fora da Europa fica impressionado porque só vê os nomes e os principais lances e gols. Mas com o advento da internet e com jogos sendo transmitidos on-line, os mais loucos por futebol podem ver de tudo. E quem vê sabe que eu não estou aqui louco. A capa, a forma, o jeito que chega aqui faz a gente pirar com o futebol na Europa, é só lembrar que belíssima festa foi feita na final entre Manchester e Barcelona. É de encher os olhos mesmo. Mas toda pirotecnia de fora de campo se reflete pouquíssimas vezes quando bola rola. A Europa é uma ilusão, de certa forma, quando falamos em futebol, que a gente - por ter formas tão amadoras de dirigir times - comprou bonito!

O Real Madrid, sem dúvida nenhuma, é o time que mais sabe fazer essa pirotecnia. No entanto, toda festa e todo investimento feito ao longo dos últimos anos não se traduziram mais taças lá no Santiago Bernabéu. Mas como há toda a mística sobre o time de branco, mais investimentos são prometidos para temporada 2009/2010, principalmente para tentar frear o irresistível Barça. E a grande contratação, que faz tempo que se anuncia (mas que jeito nenhum ninguém confirma), é Kaká. O ex-sãopaulino trocaria Milão por Madrid na mais cara transação do futebol, 66 milhões de euros. Especula-se que o Milan tem uma dívida que giraria mais ou menos nesse valor e é sempre bom saldar os débitos. Berlusconi, presidente do Milan e primeiro ministro italiano, não quer falar nisso até passarem as eleições lá no país da bota, agora nesse final de semana. O partido de oposição estaria utilizando essa negociação para esculachar o Berlusconi.

Mas é fato que muita gente dá por certa a ida de Kaká para o Real, que também não passa lá por grande vantagem nas finanças, mas conta com um presidente mais que endinheirado, Florentino Pérez. Pérez que acaba de se eleger presidente do Real, aliás, e usou a contratação do craque da seleção brasileira como plataforma para concorrer sozinho ao posto.

Vejam só, presidente que coloca grana no clube, o time que mais venceu o mundial de clubes com dívida de quase 200 milhões de reais. Complicado, não é? Um olhar mais afundo e vemos que o sonho europeu não é tão belo assim. Claro que nem dá para comparar com as dificuldade vividas por aqui, mas vemos que as maracutais são as mesmas. Além disso, como anda se pensando muito no marketing e pouco no futebol, grandes craques não é garantia de bom futebol.

Para o bem do futebol, seria bom que o Kaká ficasse no Milan e que o time italiano se reestruturasse para a temporada onde ele volta a disputar a Champions League. Kaká saiu muito novo do São Paulo e se tornou craque por lá, tem enorme identificação com a torcida do Milan e já manifestou publicamente que gostaria de permanecer por muito tempo defendendo aquela camisa rubronegra.

Se concretizada essa negociação, para mim pelo menos, fica impressão de que a lição passada pelo Barça ainda não repercutiu na Europa. Mais que várias contratações em medalhões, o ideal é que se tenha uma boa categoria de base e invista em jogadores que querem criar um identificação com o clube. Ter como foco uma comissão técnica que se alinhe com o ideal de futebol que tradicionalmente o time sempre teve é importante também.

Acho que o Real Madrid está nadando contra maré e pouco contribui para evolução do futebol. Aliás, o Milan também, pois especula-se que a saída do Kaká seria para dar lugar a Cristiano Ronaldo. Times assim só sobrevivem mesmo por essa capa criada na Europa, pois se estivessem no Brasil estariam quebrados e passando o pires.

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